Rio Grande da Serra, 16/11/2025

Foto ilustrativa: batismo do Eunuco Etíope por Felipe ( discípulo de Jesus Cristo)

Por Jeziel Marcos Correia da Silva – Representante da Sociedade Civil no Conselho de Igualdade Racial de Rio Grande da Serra.

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente…” — Romanos 12:2

A colonização do Brasil não terminou. Ela apenas mudou de forma, instalando-se em nossas mentes através da educação e da cultura que recebemos. Internalizamos a visão do colonizador, um olhar que invisibiliza, desvaloriza e apaga o conhecimento do povo oprimido, fazendo com que ele próprio se veja como inferior. Mesmo formalmente livres, somos impedidos de nos desenvolver plenamente. Por isso, a descolonização da mente é urgente. Precisamos resgatar nossa identidade e consciência crítica para transformar a sociedade e reconhecer nossas próprias vozes.

Nesse processo, o cristianismo surge como um campo de disputa. Em sua essência, a fé cristã busca a liberdade e o amor, não a imposição pela força. No entanto, essa fé foi sequestrada por europeus e usada como ferramenta para colonizar povos e mentes. Embora o cristianismo já estivesse presente na África muito antes do domínio colonial, os colonizadores usaram uma suposta superioridade para deslegitimar o riquíssimo legado que o continente africano deu à fé. O que recebemos no Brasil, através de missionários europeus e americanos, foi um evangelho eurocêntrico, que retrata a cultura africana com base em estereótipos e histórias incompletas.

A hipocrisia desse processo é gritante. Os mesmos europeus que cortavam os pescoços dos povos nativos com seus facões eram os que se ajoelhavam diante da cruz. Os mesmos que amontoavam cadáveres, roubavam a liberdade e escravizavam pessoas como se fossem animais, afirmavam que as práticas religiosas indígenas e africanas eram demoníacas.

Eram homens que diziam salvar almas do inferno enquanto, na prática, criavam o inferno na Terra. Eles escravizaram o povo negro de forma cruel e desumana, com trabalhos forçados do nascer ao pôr do sol, sem comida ou saúde, sob a ameaça de açoites públicos, separação familiar e a supressão de sua cultura, levando muitos ao desespero e ao suicídio.

Para justificar tais atrocidades, foi preciso apagar a história. Missionários europeus afirmavam que os negros na África serviam a demônios e que o continente era amaldiçoado. Para isso, ignoraram os quase 400 anos de proximidade entre o povo judeu e o povo africano, desde a chegada de José ao Egito. Ignoraram a admiração da poderosa Rainha de Sabá pela sabedoria de Salomão.

Mais do que isso, tentaram apagar o papel decisivo que a África teve na construção da fé cristã através de homens brilhantes como Lactâncio, Orígenes, Atanásio, Santo Agostinho de Hipona e Tertuliano. Intelectuais europeus e americanos esconderam a profundidade do cristianismo primitivo africano e omitiram o fato de que o poderoso Reino de Axum (hoje Etiópia e Eritreia) adotou o cristianismo como religião oficial muito antes do Império Romano, e sem nenhuma influência europeia. Tudo isso faz parte de um apagamento histórico sistemático.

Hoje, a quem interessa manter essa narrativa? Segundo o Censo de 2022 do IBGE, 55% dos evangélicos e 58% dos católicos no Brasil são negros (pretos e pardos). Estamos falando de dezenas de milhões de pessoas. Qual o propósito de um discurso histórico que limita o cristianismo à Europa e nega o protagonismo da África, escondendo as crenças, valores e a memória que o povo negro cristão tem o direito de conhecer e preservar?

Para uma verdadeira Consciência Negra, é fundamental reconhecer as raízes africanas do cristianismo. A luta do povo negro não pode exigir a renúncia à identidade cristã. Essa “amnésia histórica” que gera desconfiança em relação à fé cristã serve apenas para afastar o negro de sua própria história, de sua consistente africanidade cristã. Reduzir mais de 2000 anos de fé a um recorte colonialista é a prova de que a colonização das consciências ainda nos afeta, afrontando a dignidade e a liberdade protegidas pela nossa Constituição.

Convidamos a todos a celebrar conosco:

Primeiro Encontro Evangélico Interdenominacional na Cidade de Rio Grande da Serra

CULTO DA CONSCIÊNCIA NEGRA
29/11/2025 às 19h

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
Romanos 12-2

Rua José Maria Figueiredo, 435 – Jardim Maria Paula, Rio Grande da Serra – SP